segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Dê ouvido as paredes

Hoje conversei com as paredes. Há muito tempo não lhes dava ouvido, por achar que sempre estavam se preocupando com a vida alheia. Mas hoje estava só e elas me pareceram ser as únicas a me escutarem naquele dia. Elas como sempre pacientes e caladas a fim de ouvir mais uma capítulo da tragédia dos homens. Elas me recordaram do dia em que estavas nos meus braços e como um gravador, que tudo registra, elas repetiram palavra por palavra. Só agora aquelas palvras me fizeram sentido. Somos escravos do desejo e inimigos da razão. Acreditar no ideal é o que todos fazemos, mas é na imperfeição que encontramos algum sentido. As paredes prosseguiram no seu discurso, que agora pairava no existencial. Como e por que as coisas giram para a esquerda quando queremos com toda a força que elas sigam para a direita? Enquanto olhava as paredes brancas seguidas por um teto mais branco ainda me sentia no infinito, onde via apenas um começo sem fim. Ficava a imaginar até que ponto estava disposto a seguir. Sempre as julguei mal, apenas as ouvintes das tramas humanas. Aprendi agora ouvir e entender o que ainda ressoa pelos cantos do quarto e como esse som, que para mim sempre pareceu um silêncio, grita e perturba a minha paz.

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